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14
Out 19

 

Notas Biográficas

 

1899 – nasce em Silves, a 21 de Novembro, Bernardo Loureiro Marques.

1918 – depois de cursar o liceu, em Faro, começa os estudos na Faculdade de Letras de Lisboa.

1920 – na 3ª Exposição de Arte promovida pelo Grupo de Humoristas Portugueses, durante o mês de Julho, no salão do Teatro de S. Carlos, apresenta ao público, pela primeira vez, os seus trabalhos: 14 cartões, 9 dos quais com impressões do Algarve.

1921 – abandona a Faculdade de Letras e começa na Ilustração Portuguesa e em O Século intensa actividade de colaboração artística que prosseguirá, depois, na Contemporânea, Revista Portuguesa, Diário de Notícias e outros jornais e revistas.

1926 – expõe no 2º Salão de Outono, inaugurado em 30 de Novembro na Sociedade Nacional de Belas Artes, e trabalha na decoração da parede do fundo do café "A Brasileira", no Chiado.

1929 – estada na Alemanha.

1930 – expõe no I Salão dos Independentes (Maio), na Sociedade Nacional de Belas Artes.

1931 – com outros artistas (Fred Kradolfer, Carlos Botelho e José Rocha) Bernardo Marques realiza as decorações do pavilhão português na Exposição Colonial Internacional de Vincennes.

1934 – em Paris, participa numa exposição de pintores portugueses e brasileiros efectuada no "Théatre de l’Oeuvre" e expõe na Casa de Portugal. Em Lisboa, colabora nas Festas da Cidade com trabalhos decorativos para o cortejo fluvial no Tejo.

1935 – a sua participação nas Festas de Lisboa é assinalada pela acentuação do espirito moderno que caracteriza a Feira do Terreiro do Paço, decorada por Bernardo Marques e Fred Kradolfer.

1937 – em Paris, pinta com Fred Kradolfer cenários para o "Théatre des Champs-Élysées" destinado a um espectáculo de folclore organizado por António Ferro. Bernardo Marques é um dos decoradores do pavilhão português na Exposição Internacional de Paris.

1939 – nos Estados Unidos da América do Norte, Bernardo Marques faz parte, com Kradolfer, Emmérico Nunes, Tom, Botelho e José Rocha, do grupo de artistas que realiza a decoração dos pavilhões portugueses nas exposições internacionais de Nova Iorque e de São Francisco.

1940 – na Exposição do Mundo Português, Bernardo Marques é um dos pintores-decoradores do Pavilhão da Colonização, secção de pavilhões da Vida Popular e "Portugal-1940".

1941 – Bernardo Marques é condecorado com a Ordem de Sant’Iago.

1945 – expõe, na Galeria Calendas, em Lisboa, com Ofélia Marques, Mily Possoz, Abel Manta, Dórdio Gomes, Diogo de Macedo e Manuel Bentes.

1949 – representado no 1º Salão Nacional de Artes Decorativas (S.N.I.-Maio-Junho) com ilustrações e arranjos gráficos em obras de várias casas editoras da capital. Chefe da equipa de decoradores da 1ª Feira das Industrias Portuguesas, funções que exerceu também nas 2ª e 3ª Feiras, respectivamente em 1950 e 1951.

1952 – com quatro desenhos, Bernardo Marques representa Portugal, por indicação do S.N.I. na Bienal Internacional "Bianco e Nero" de Lugano.

1953 – representado na Exposição de Vinte Artistas Contemporâneos em Portugal, na Galeria de Março.

1955 – concedido a Bernardo Marques o prémio de Desenho na Exposição Iconográfica das Pescas realizada no Instituto Superior Técnico.

1957 – na 1ª Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian são atribuidos a Bernardo Marques um prémio de Aguarela e um prémio de Desenho.

1958 – prémio especial de Pintura na Exposição de Artes Plásticas promovida pela Câmara Municipal de Almada.

1961 – representado na 5ª Exposição de Artes Plásticas organizada pela Câmara Municipal de Almada nas salas do Convento dos Capuchos e na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.

1962 – no dia 28 de Setembro morre, em Lisboa, Bernardo Marques.

 

BERNARDO MARQUES foi director gráfico das revistas Panorama (1941-1950), Litoral (1944-1945) e Colóquio (1959-1962). Entre as numerosas obras literárias cuja edição ilustrou ou dirigiu gràficamente contam-se as seguintes: "Os Que se Divertem", de Luzia (3ª edição); "O Fado Canção de Vencidos", de Luis Moita; "La Dernière des Amazones", de Georges Raeders; "O Malhadinhas", de Aquilino Ribeiro; "Lisboa", de Luiz Teixeira; "Os Maias", de Eça de Queiroz, edição do Club Bibliophile de France; "O Livro de Cesário Verde"; "Portugal – Oito Séculos de História ao Serviço da Valorização do Homem e da Aproximação dos Povos (Comissariado Português da Exposição Universal e Internacional de Bruxelas de 1958); "Crónica da Fundação dos Caminhos de Ferro em Portugal", de Luiz Teixeira; "Aguarelas do Comandante Pinto Basto"; "História da Poesia Portuguesa", de João Gaspar Simões. Após o falecimento de Luis de Montalvor exerceu a direcção artística e técnica da Editorial Ática. Fez, para o Círculo Eça de Queiroz, três painéis representativos do Passeio Público e interpretando vários capítulos de "Os Maias" e "Cartas de Fradique Mendes". Desenhou alguns cenários e figurinos para os Bailados Verde-Gaio, colaborou na decoração dos paquetes "Vera Cruz" e "Santa Maria" e, com o arquitecto Keil do Amaral, decorou o filme português "O Trevo de Quatro Folhas".

 

Memória de Bernardo Marques (por Fernando de Azevedo)

 

Dos olhos à mão do artista, perfaz-se um itinerário de memórias. Na folha do álbum, corpo anónimo, dócil e aberto, inquietante na sua espera branca, esse percurso acontece ao pintor como uma biografia inesperada. São vários os tempos da memória e variado também o seu registo: as pessoas, as coisas, os sítios nítidos onde estão, o seu diálogo, a sua pitoresca e animada história, até. Não como numa cronologia, por ordem, para ser entendida mais tarde sem mais nada, antes uma necessária companhia de todos os instantes, de todos os humores, uma companhia que vem do longe de uma lembrada invenção, por vezes, e toma o seu lugar, naturalmente. O registo sem tumulto, deste vai e vem de memórias na folha branca do álbum é a intimidade do pintor. O seu ritmo, uma vivência. Da mão que traça o que foi visto, sente-se-lhe inteira a pulsação, o gesto amoroso confessado. Os gestos do início, inseguros, sem peso, aqui e ali postos como armadilhas de imagens que em breve se precisam com outros, muitos, sobrepostos, cruzados, ora sustidos como uma respiração súbita, ora desencadeados como uma certeza imediata. Por eles passam a luz e a sombra e o corpo das coisas é deles feito. Uma escrita assim entendida, quem a propõe, quem a usa, exige-se. Confessional sem o propósito de o ser, o desenho de Bernardo Marques, torna-se ele, a pessoa, define-o. Do lado de cá, de um espelho, donde se espreitam costumadamente as figuras, o Bernardo só lá está quando estas devem ser, e exactamente, figuras. Aí, com o que outros delas tenham dito, dá-lhes uma cara parecidíssima, uma atitude que só pode ser aquela, uma roupagem sua, concretiza-lhes os hábitos e jeitos, veste-os de uma história, dá-lhes um lugar e um tempo seus, e irònicamente, fixa-as lá, para sempre. Mas não lhe serve esse espelho para o passeio na cidade, nem para interpôr na paisagem. Só e únicamente, para reflectir as figuras. Mas para lá das figuras, há as casas, as ruas e as praças da cidade conhecidas de todos, os areais e o mar, o céu luminoso, as montanhas e seus nevoeiros, uma árvore, as pedras dos muros pobres, as flores humildes dos campos iluminados. E as pessoas, as gentes, o amor real – não as figuras. A escrita exige-o. O encontro com o quotidiano deixa de ser um comentário. A realidade não está diante, está com ele, nele, o artista não pode estar do lado de cá e a natureza defronte. A longa experiência de ver, deixa de ser um exercício, interioriza-se mais e de fora só chega, o que a lembrança solicita, de mais sensível, próximo, e quase rigorosamente necessário.

Por uma janela aberta a natureza vem ao seu encontro, procurá-lo em casa, envolvê-lo. Não há dentro nem fora, mas apenas a coesão apetecida, a humildade magnífica do acordo, e o frémito de conhecê-lo. O tempo, é uma demora atenta, o desdobrar lírico de uma memória, nas noites e nos dias, ecos e luz na presença das coisas, nítidas, simples e coloridas, sem prenúncios de escuro. E quando este surge, é lentamente como um crepúsculo, invisível e tenso. Entre os olhos e o gesto do pintor, o itinerário de memórias estava já cumprido. Só era possível ao Bernardo, estar sózinho no meio de tudo, distante na sua paisagem como um risco abandonado, perdido entre as pessoas e as coisas, como se as não entendesse mais. E repentinamente, a sua mão fechou em sombra, o corpo inerte, inquietante e branco, das folhas do seu álbum.

 

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publicado por sete às 13:44

08
Out 19

Dada a falta de lugar para comentários visíveis e públicos do Sapo Dose Diário, no Portal (como seria de esperar, ou será aperto do cinto, ou para ser segredo?), eis a minha resposta/opinião, à newsletter, de 8 Out 2019, que agora posto.

Enviei este mesmo texto - entre outros - para os Exmºs, mas nada de devoluções.

Huuumm ! posso sempre segui-los no Facebook, no Twitter e Instagram.

 

Caros Sapo Dose Diária (a minha opinião):

 

Até parecem estar insatisfeitos, com o resultado das Eleições de Domingo ou, no mínimo, expectantes.

(sic) “Tudo isto é muito bonito – negociações para formar governo, campanhas, eleiçõesmas em que é que este recente processo eleitoral vai contribuir, na prática, para o dia a dia da população?”

A derrota dos partidos portugueses da direita e dos seus programas (apenas aumento de impostos, aumento dos preços de Tudo, carestia de vida, sem algum nexo), é já tão evidente, que seria de admirar eles ganharem alguma coisa, e felizmente, para nós e para a União Europeia (Viva a Democracia).

A nova Geringonça 2.0 (sic) vai prosseguir a política social anterior (aumento de pensões, alívio fiscal, passes sociais mais baratos, taxas moderadoras mais baixas, reposição de Feriados retirados, horários de trabalho mais adequados, menos desemprego, défice mais baixo), apesar dos bosquímanos, histéricos, confusos, incongruentes e infantis discursos, dos Jornais, dos canais de Televisão e dos Sítios e das redes sociais na Internet.

(sic) “Não precisam de ser escritos em papel selado, azul, de 25 linhas”

O papel selado, o papel azul de 25 e 35 linhas, já foram extintos há muitos anos, pois tinham cara de semi-analfabetos e fascistas.

P.S. Caros Sapo Dose Diário, apenas por curiosidade, e aquelas gentes de etnia cigana,  são leitores assíduos ?

 

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publicado por sete às 19:52

03
Out 19

 

"Risquei Viena da minha vida, tornei-a definitivamente impossível. Pensei, já não mereço esta cidade. E foi em Viena que ouvi pela primeira vez uma peça de Mendelssohn Bartholdy".

 

Thomas Bernhard

 

Niclaas Thomas Bernhard (Países Baixos, 1931 - Áustria, 1989) foi um escritor austríaco e é considerado um dos mais importantes escritores germanófonos da segunda metade do século XX. Deixou uma obra considerável que inclui  novelas, obras teatrais,  entre outros livros breves ou autobiográficos.

 

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publicado por sete às 18:07

23
Set 19

Em 2019 o Equinócio de Outono ocorre no dia 23 de Setembro às 08:50 horas. Este instante marca o início do Outono no Hemisfério Norte. Esta estação prolonga-se por 89,812 dias até ao próximo Solstício que ocorre no dia 22 de Dezembro às 04:19 horas. Consulte aqui toda a informação sobre o “Começo das Estações em 2019”.

Equinócio: instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, passa no equador celeste. A palavra de origem latina aequinoctium agrega o nominativo aequus (igual) com o substantivo noctium, genitivo plural de nox (noite). Assim significa “noite igual” (ao dia), pois nestas datas o senso comum diz-nos que o dia e a noite têm igual duração.

No entanto não é bem assim. Os equinócios estão definidos como o instante em que o ponto central do sol passa no equador e, por isso, efectivamente o centro solar nasce no ponto cardeal Este e põe-se exactamente a Oeste. Assim, entre o instante da manhã em que o Sol está a uma distância zenital de 90º e o instante da tarde em que se encontra novamente a uma distância zenital de 90º passam-se 12 horas. (Note-se que como a Terra avança na sua órbita ao longo do dia, o Sol não se mantém no equinócio todo o dia e isso leva a uma pequena alteração deste intervalo de tempo.

Contudo, mesmo que este intervalo fosse de 12 horas, este facto não resultaria numa duração do dia solar de 12 horas pois o Sol não é um ponto, tem um diâmetro. Sabemos que o diâmetro aparente do Sol é de 32′ (minutos de arco). Além disso a refracção atmosférica faz com que quando vemos o bordo superior no horizonte, o sol se encontra cerca de 50abaixo do horizonte (ou seja mais abaixo do que os 32′ em que estaria se não houvesse refracção). A luz directa no chão surge quando o bordo superior do Sol nasce (estando o Sol a uma distância zenital de 90º50′) e, no ocaso, a luz directa desaparece quando o bordo superior toca o horizonte (estando o Sol a uma distância zenital de 90º50′). Assim, estes 100 minutos de arco extra (50′ x 2) produzem 7 minutos a mais de luz solar directa. Por esta razão, no equinócio a duração do dia é cerca de 7 minutos maior do que a duração da noite. Só uns dias mais tarde, quando o Sol tiver uma declinação um pouco menor, teremos a duração da noite e do dia efectivamente iguais. Isso acontecerá no dia 26 de Setembro de 2019, em que haverá muito perto de 12 horas de luz solar directa no solo. Nesse dia o disco solar nasce às 07:27:26 horas e põe-se às 19:27:49 horas (em Lisboa), diferindo a duração do dia e da noite em apenas 23 segundos.

 

Fonte: Observatório Astronómico de Lisboa

 

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publicado por sete às 19:55

13
Set 19

 

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A Sexta-feira no dia 13 de qualquer mês é considerada popularmente como um dia de azar. O número 13 é considerado de má sorte, tendo sido mal interpretado desde há muito tempo.

Triscaidecafobia é um medo irracional e incomum do número 13. O medo específico da sexta-feira 13 (fobia) é chamado de parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia.

 

Existem entre uma e três sextas-feira 13 num ano civil. Estes dias estão envoltos em mistérios, azares, receios e gatos pretos.

Em redor do número 13 existem sombras e desconfianças enraizadas em várias culturas. Eram treze os presentes na Última Ceia, sendo o traidor Judas. No Apocalipse, o número treze é o capítulo onde se assume que o número da besta e do anticristo é o 666. A Cabala, que é um ramo do esoterismo com relações ao judaísmo, enumera treze espíritos malignos. E até no meio do ceticismo nórdico surge a personagem de Loki, o deus do fogo e da travessura, que aparece nas escrituras muitas vezes como sendo o décimo terceiro convidado.

Também a sexta-feira tem significados obscuros. A tradição cristã assume que Jesus Cristo foi crucificado à sexta-feira. Alguns estudiosos da Bíblia crêem que Eva levou Adão para o pecado quando lhe ofereceu a maçã ao sexto dia da semana. E não saindo das histórias de traições, conta a história que Abel foi assassinado pelo irmão Caim numa sexta-feira.

 

CELEBRAÇÕES DA SEXTA-FEIRA 13 EM PORTUGAL

 

Em Portugal, muitas cidades e vilas celebram a Sexta-feira 13. A maior festa acontece no castelo de Montalegre, Trás-os-Montes. Em Montalegre, todas as sextas-feiras 13 há uma grande festa, onde não faltam as bruxas, os bruxos, feitiços, teatro e a famosa queimada.

Na vila de Vinhais, na aldeia de Cidões, também se festeja a sexta-feira 13. Nesta festa, as pessoas reúnem-se à volta de uma grande fogueira. Há também um banquete com produtos locais.

Em Cavalinhos, Leiria, as mulheres juntam-se num encontro onde os homens não podem participar. A noite é das mulheres, que aproveitam para passarem uma noite com muita adrenalina à mistura.

Noutras cidades portuguesas, como Braga, Loulé ou Porto, a sexta-feira 13 é celebrada com muita animação e com muitas bruxas à mistura.

 

publicado por sete às 00:21

 

A opinião de Guilherme Duarte

 

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“Tu és rapaz ou rapariga?”, pergunta a professora a um aluno. A turma inteira ri-se e ele responde com a sua voz ainda não alterada pela puberdade e ajeitando a sua écharpe “Rapaz!”.

 

Tinha acabado de entrar para o 7º ano de escolaridade numa escola nova, com colegas novos e, claro, professores novos. Com 13 anos, a passagem para o 3º ciclo é das mais importantes e potencialmente mais inquietantes que alguém, no início da sua puberdade e adolescência, pode ter. Fui gozado por usar fato de treino com botas ortopédicas, mas este texto não é sobre a minha mãe. Na primeira aula de Educação Visual, uma disciplina nova para todos os alunos – menos para os burros dos repetentes – a professora, uma senhora pequenita e simpática, cheia de energia, decide o seguinte “Vamos contar quantos rapazes e quantas raparigas há!”. Começa a fazer a ronda, a contar os rapazes, um por um, quando empanca a contagem numa pessoa, faz uma pausa e pergunta: “Tu és rapaz ou rapariga?”. A turma inteira ri-se e ele responde com a sua voz ainda não alterada pela puberdade e ajeitando a sua écharpe “Rapaz!”. A professora continua a sua contagem como se nada tivesse acontecido. Na altura, apesar de me rir em conjunto com a turma, aquilo pareceu-me logo de uma violência e de uma falta de sensibilidade gigante vinda de um adulto e, ainda por cima, de um educador. Nós também gozávamos com miúdo, mas nós éramos putos estúpidos, não sabíamos melhor. No entanto, a dúvida da professora foi legítima, atenção, sem o ouvir falar e naquela androgeneidade generalizada da pré-adolescência, é normal que a dúvida se instalasse na cabeça da professora, mas perguntar em alto e bom som se é rapaz ou rapariga? Nunca! Tinha de arriscar! Olhar para o buço e arriscar. Se falhasse desculpava-se com a falta de óculos ou assim que seria menos ofensivo do que fazer a pergunta para todos ouvirem e gozarem com o rapaz.

Mais de vinte anos volvidos e, agora, reza a lenda no grupo de colegas dessa altura com quem ainda vou falando que esse rapaz mudou de sexo e é agora uma mulher. Nunca obtive confirmação dessa informação, mas a ser verdade parece que a professora era uma visionária e percebeu a dicotomia de identidade de género que ali estava em conflito naquele ser. O que na altura pareceu ser uma completa falta de sensibilidade e pedagogia, parece que agora faz sentido. Aliás, prevejo um futuro em que tem de se perguntar a toda a gente qual o seu género, para não corrermos o risco de tratar por “ele” o que parece ser um rapaz de barba e voz grossa e ofendermos a Vanessa. Curiosamente, no trânsito vai ser mais fácil distinguir, pois basta olhar para o carro e perceber se tem muitos riscos de lado para sabermos o género do condutor.

Falo disto porque estive de férias e não tive tempo para dar atenção às polémicas das casas de banho na escola em tempo útil. Há muita gente a pensar que as novas leis aprovadas vão fazer com que as crianças vejam a identidade de género como escolha múltipla. Vão escolher à sorte o seu sexo ou vão copiar pelo colega do lado e escolher um género só porque está na moda. Muitos dos que falam na moda da ideologia de género são os que seguem a moda e importam a bandeira da luta contra essa suposta ideologia do Brasil e dos Estados Unidos porque veem que é uma boa forma de terem atenção.

A minha ideologia é a seguinte: se és maior de idade, faz o que quiseres. Nem me interessa se é uma disforia de género ou um problema mental. Nem quero saber. És maior, faz o que quiseres para ser feliz. Queres meter 7 pénis alinhados com os chacras ao longo da coluna e dizer que te identificas com um estegossauro de pilas? Desde que as pilas tenham sido recolhidas com o consentimento dos donos, por mim tudo bem. Quanto às crianças, percebo que haja gente que finja estar preocupada com os filhos dos outros, mas todos sabemos que é mentira e que são pouquíssimas crianças nessa situação. Preocupam-me mais os pais que não vacinam os filhos do que os que acham que o Martim afinal é a Soraia, só porque o apanharam a refilar com o Action Man para baixar o tampo da sanita, e lhe começam a dar hormonas.

 

publicado por sete às 00:16

09
Set 19

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Foi há 19 anos que estreou o programa que revolucionou a televisão portuguesa. Catorze concorrentes anónimos, vigiados 24 horas sobre 24 horas, mostravam-se sem filtros e em direto. A Internet dava os primeiros passos e estávamos a anos-luz do nascimento das redes sociais. A TVI, em desvantagem nas audiências, estreava nesse dia o programa que mudaria para sempre a face da televisão portuguesa: ‘Big Brother’, com apresentação de Teresa Guilherme e Pedro Miguel Ramos.

Em 3 de Setembro de 2000 estreava o ‘Big Brother’, reality show produzido pela Endemol e cujos direitos foram vendidos para a TVI, após renúncia da SIC. Muitos consideram que esta opção de Emídio Rangel (na altura director de programação da SIC) foi decisiva para que a estação televisiva perdesse a guerra de audiências no horário nobre para a TVI.Seria José Eduardo Moniz, então director da Estação, a aproveitar a oportunidade e a comprar o ‘Big Brother’ para Portugal.

A TVI estreou então o primeiro reality show produzido em Portugal e, desde o seu início, foi um grande sucesso, fazendo com que cidadãos anónimos ficassem conhecidos de todo o país. O programa foi objecto de amplo debate sociológico na sociedade portuguesa. Doze concorrentes foram escolhidos entre milhares de candidaturas para coabitarem numa casa na Venda do Pinheiro durante um período máximo de 120 dias, com o vencedor a ser determinado no último dia do ano.

Dezanove anos volvidos, os reality shows fazem parte do dia-a-dia e nomes como o de Zé Maria, Marta Cardoso, Marco Borges, Célia, Telmo Ferreira ou Mário Ribeiro, vão ficar para sempre na memória dos portugueses, e continuam a ser tão mediáticos como amados pelo grande público.

Teresa Guilherme tornou-se, graças ao Big Brother, na rainha dos reality shows. Apresentou praticamente todos os formatos deste género.

 

Zé Maria (27 anos, trolha, de Barrancos)

 

Foi o vencedor da primeira edição. O pedreiro de Barrancos, na altura com 27 anos, ganhou 20 mil contos (o equivalente a cerca de 100 mil euros) e um automóvel. O alentejano acabou por não saber lidar com a fama, o que fez com que, rapidamente, ficasse sem dinheiro e chegasse mesmo a estar internado numa clínica psiquiátrica, depois de ter ameaçado suicidar-se, tendo desaparecido do espectro mediático.Montou vários negócios mas sem sucesso.Há cerca de um ano estava a trabalhar em Espanha, numa fábrica de jóias.

 

Marco Borges (24 anos, vendedor de produtos químicos e kickboxer, do Carregado) e Marta Cardoso (23 anos, barmaid, de Loures)

 

Apaixonaram-se durante o programa e protagonizaram as primeiras cenas de sexo em direto na televisão portuguesa, em horário nobre. Ela tinha 23 anos e ele 24. Acabaram por casar numa cerimónia transmitida em direto pela TVI e da união nasceu Alexandre, hoje com 16 anos. Porém, acabaram por se divorciar em 2005. Marco voltou a casar e já tem mais filhos. Marta trabalha no ramo imobiliário e colabora pontualmente com a estação de Queluz.

 

Telmo Ferreira (23 anos, serralheiro e ex-paraquedista, de Leiria) e Célia (18 anos, estudante de Vila Nova de Gaia)

 

Apaixonaram-se no reality show e estão casados até hoje. Na altura ela tinha apenas 18 anos, ele 23. O casal tem 2 filhos: Rafael, de 2 anos, e Alexandre, de 15. A última aparição do casal foi no dia 26 de Novembro de 2017, num programa da Teresa Guilherme, o “Confessionário”, em que se recordava os participantes dos reality shows do canal.

 

Mário Ribeiro (19 anos, estudante e modelo, de São Mamede de Infesta)

 

Tinha 19 anos quando entrou e era muito acarinhado pelo público. Após o programa, em 2007, foi condenado a cumprir pena de prisão pelos crimes de roubo qualificado e falsificação de documentos. Hoje, ultrapassou esta fase complicada e vive fora do mediatismo.

 

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publicado por sete às 14:59

15
Ago 19

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publicado por sete às 14:58

15
Abr 19

Uma crítica musical descreveu-a na juventude como "uma autêntica vocação lírica, a quem podem estar reservados grandes triunfos", mas só conseguiu gravar na meia-idade. Dedicou a vida a tentar ser uma musa do bel-canto, mas não passou de uma diva iludida. Acabou por alcançar uma espécie de êxito póstumo: tem uma legião de "fãs" e os seus vinis são peças de coleccionador.

O mundo conheceu há anos a Florence Foster Jenkins, filha de pais ricos, conhecida na sociedade nova-iorquina como a "rainha do grito". Uma desafinada crónica que pensava cantar Mozart, Verdi e Strauss qual Kiri Te Kanawa. Nas suas tardes concorridas no Ritz, não faltavam fãs como o Cole Porter ou o meu ídolo Noël Coward. E não iam lá para achincalhar a figura, antes para apanhar boleia daquele obsessivo optimismo, daquela saudável loucura, daquela espécie de autismo artístico contagiante.

Foi isso que a Natália de Andrade provocou em mim quando a conheci. Ainda hoje me divertem imenso as suas gravações. Aquela afinação tão peculiar, aquele sorriso nos lábios que transforma a "área de Manon" em qualquer coisa de muito trendy e kitsch, tem o mesmo efeito na minha alma que algumas músicas dos Pink Martini numa tarde de Verão, ou alguns dos irónicos surrealismos do Warhol em passeios no MoMa.

Será um pecadilho este fascínio, será por vezes uma crueldade, mas que hei-de eu fazer ? Não lhe resisto. À hora a que escrevo este texto, estou a pouco de actuar num casino do Algarve. Como habitualmente, uma das minhas piéce de résistence no arranque do espectáculo será a minha imitação quase perfeita da sua Canção Verde.

Onde quer que esteja, a Natália ao ouvir-me deve estar a sorrir de orgulho e a dizer para os seus detractores: "Eu não vos disse que fui uma diva que inspirou gerações de artistas?"

O que resta da vida de Natália Barbosa de Andrade está embalado em oito pacotes de papel dispostos ao lado de um piano de cauda num enorme salão de festas que mal é usado. A janela do casarão dá para uma paisagem envolta em árvores a perder de vista.


Retirando-se a fita-cola amarelecida de um dos pacotes, descobrem-se nove fotografias autografadas. Parecem desacompanhadas, porque adivinhamos terem sido as que ficaram por distribuir. Rigorosamente iguais e em tons sépia, os retratos são de um rosto muito jovem (na casa dos 20 anos) e têm colados ao canto uma tira branca com o seu nome e a palavra "soprano". Nas costas do retrato, a ordem é inversa, primeiro manuscreveu "cantora lírica", para que não haja dúvidas, e depois assinou o seu nome: Natália de Andrade. Sem data.Num segundo pacote estão guardados dois discos de vinil de 33 rotações, com interpretações suas de obras de compositores como Verdi e Puccini. Na capa aparece sorridente e idosa (parece andar pelos 70 anos). Nenhum dos álbuns está datado.


Num terceiro pacote há um diário escrito à mão em papel almaço envelhecido que termina na página 1050, mas que só tem 549 porque Natália continuou naturalmente o seu relato mas saltou da 394 para a 895 sem disso se dar conta. No que intitulou A Minha Biografia, escreveu em epígrafe: "A música será sempre, através dos tempos, o expoente máximo da compreensão e beleza: um mundo eterno repleto de realidade... num sonho maravilhoso."Natália pop

Enganava-se Natália quando escrevia: "Só através dos meus discos, é que Portugal me poderá ouvir." Auto-intitulada cantora lírica, mas acabando por ser celebrizada em programas televisivos, como O Passeio dos Alegres, de Júlio Isidro, ou em imitações de Herman José na Roda da Sorte, como uma figura caricatural, o seu canto pode hoje ser descarregado na Internet como toque de telemóvel, há cópias dos seus vinis em CD que passaram de mão em mão, tem um website de um admirador (http:nataliadeandrade.com.sapo.pt) que lhe tenta reconstituir o percurso e lhe admira "a luta e empenho que dedicou ao seu sonho de vida", está no YouTube com vídeos que ultrapassam as 40 mil visualizações. De quando em quando, esses poucos soundbytes chegam-nos num daqueles emails que divertem passageiramente e logo se esquecem e são apagados.

Encontra-se o seu rasto em várias referências humorísticas na Internet, uma delas falando da existência de "uma "Natália de Andrade-experience"" - leia-se sinónimo de mal cantar - e mesmo a reivindicação, irónica, da possibilidade de ser criado um clube de "fãs".


Para os que a conhecem por esta via, Natália de Andrade não representa mais do que a lembrança de uma pretensa cantora lírica tornada anedota e que, para muitos, apenas é sinónimo de um tema, A canção verde, celebrizado por Herman José na década de 1990. Com a voz esganiçada e estridente, o efeito cómico quase parece fácil de obter porque quando se passa da imitação para o tema cantado pela própria parece-nos que a distância entre caricatura e caricaturada não será afinal assim tanta.Natália de Andrade, passados onze anos da sua morte, mantém assim um nicho de "admiradores" da sua figura quase burlesca e um lugar reservado numa espécie de cantinho da cultura pop que a Internet eternizou. Ela que o que queria era ter o seu nome imortalizado no mundo da música erudita, o seu nome gravado no firmamento do bel-canto ao lado de Montserrat Caballé e Maria Callas... "Tenho a certeza que ficarei na História da música erudita", escreve no seu diário.

JOVEM PROMESSA ?

Além dos dois vinis que mantinha em sua posse no final da vida, Natália de Andrade conseguiu gravar mais quatro discos, os dois primeiros na Columbia de Madrid e os restantes na Valentim de Carvalho, em Lisboa. Na capa do primeiro lê-se uma elogiosa crítica publicada no Diário de Lisboa que lhe foi feita por uma prestigiada e exigente crítica de música erudita da altura. Francine Benoit anuncia-lhe um futuro promissor: "De facto, trata-se de uma autêntica vocação lírica, a quem podem estar reservados grandes triunfos." E continua referindo-se às suas "qualidades vocais de ampla e boa sonoridade, apesar da sua extrema mocidade".

A crítica inicial foi de tal forma marcante que a reproduz na parte de trás de três dos seus seis discos. Não se sabe que idade teria Natália à data da promissora crítica mas os pais parecem ter-lhe acalentado o talento. A mãe, Maria de Andrade, dava aulas de piano em casa e intitulava-se cantora lírica, fazendo-se em alguns concertos acompanhar pela filha. A sua estreia foi no Conservatório de Lisboa e pouco depois surge ao lado da mãe num recital no Casino de Espinho.

Enquanto o casal esteve junto - separaram-se já a filha era adulta -, Maria cultivou o talento da pequena, que conta a sua estreia, no diário enquanto criança de dez anos, no colégio Calipolense, em Lisboa. Aqui, um pai sentado na plateia e demasiado empenhado em dar-lhe instruções de interpretação tanto gesticula, que faz da primeira oportunidade artística da pequena Natália um fracasso. Não conseguirá cantar, em vez disso gargalha. "Deu-me uma vontade de rir tão grande, que ri tanto, tanto, com as mãos a tapar a cara, cheguei às gargalhadas sem nada que me pudesse fazer calar!!!"

Mais tarde, os pais inscreveram-na como aluna externa do Conservatório Nacional de Lisboa, de canto e piano, algo que na altura era reservado a poucos. Apenas "famílias com posses ou meninas bem com ligações familiares punham as filhas no Conservatório. Só nos últimos cerca de 30 anos o ensino da música se vem democratizando", lembra Elsa Cortez, professora de Educação Vocal no Instituto Gregoriano de Lisboa. O pai era inspector no jornal O Século e movia-se bem no meio musical, tanto que em 1940 Natália surge no elenco de uma ópera do compositor Ruy Coelho, amigo da família, no Coliseu dos Recreios.

No seu diário fala de ter tido "alta classificação" a canto no Conservatório de Lisboa. Os registos comprovam que Natália andou erraticamente na instituição como aluna externa, entre os 18 e 21 anos, e as suas notas falam de média de Bom a Piano e a Ciências Musicais.

Apesar de a crítica à actuação que escolheu colocar nos seus discos fazer referência a uma jovem de tenra idade, não há registos vocais desse tempo. Os elogios foram estampados na primeira gravação que conseguiu fazer, quando tinha já 54 anos - uma crítica dedicada a uma jovem promessa impressa em discos cantados por uma mulher de meia-idade.

Não se sabendo então como cantaria a jovem Natália, resta-nos comparar a Natália de 54 anos com a que passou dos 70 anos, faixa etária em que gravou três dos seus álbuns. No último, em 1986, já tinha 76 anos.

Elsa Cortez ouve as duas Natálias e comenta acerca do primeiro disco, na meia-idade: "Aqui percebem-se as notas, a voz é mais limpa, o vibrato tem menos distorção, o que permite maior definição das notas. É bastante melhor do que mais à frente." Natália septuagenária: "As notas não estão definidas, há desigualdade do timbre e descontrolo do vibrato."

Há então uma diferença de qualidade de voz nos cerca de 20 anos que passaram entre um disco e outro mas ficará para sempre a interrogação: terá a jovem Natália tido boa voz? "Pode ter tido bom potencial vocal, não vou dizer que não poderia ter tido boa voz aos 20 anos. A voz tem muitas surpresas."

Mas para o potencial de uma voz ser aproveitado teria sido preciso "acompanhamento e desenvolvimento de um espírito crítico próprio e dos que a rodeavam para se poder aperfeiçoar". Se tal tivesse acontecido, diz Elsa Cortez, talvez tivesse chegado à maturidade com a voz disciplinada e treinada. Não foi o caso.

As últimas gravações que ficaram e pelas quais ficou conhecida são já no mesmo registo de A Canção Verde... São estas que a catapultam como um boneco de humor. São já de uma Natália de Andrade na terceira idade, quando toda a parte muscular envolvida no canto já está deteriorada e quase já não há cantores líricos na vida artística activa. "O drama dos grandes artistas é retirarem-se antes de perderem as suas capacidades", acrescenta Elsa Cortez.

O musicólogo Rui Vieira Nery é mais céptico e diz que pensar que Natália de Andrade tinha talento quando era jovem seria talvez o mais agradável de ouvir, quase como uma redenção póstuma para "uma história triste e injusta" de que ela foi alvo em vida, mais, "a utilização vergonhosa de um caso clínico". Apesar de a crítica Francine Benoit ver nela "algum talento", o especialista não acredita que tivesse grande potencial na juventude. Seria quando muito "medianamente competente", refere, mais uma das muitas jovens que passaram por um Conservatório, na altura, sem grandes exigências de entrada, nota.

ETERNAMENTE JOVEM

Talentosa ou não enquanto jovem, Natália de Andrade verá na juventude uma espécie de passado dourado onde pairará, em contraste com uma figura que ia envelhecendo. Uma vizinha no prédio onde sempre viveu, em Lisboa, Ana Paula Sousa, lembra que "com 60 anos dizia que tinha 20 e 25 anos".

Maria Emília Ramalho, chefe do departamento dos arquivos musicais da Antena 2 no tempo em que Natália lá foi colaboradora, recorda que "tirava 20 anos à idade" e lembra-se até de esta lhe ter contado "uma história de pura fantasia, quase de crianças": de como tinha uma irmã mais velha com o mesmo nome que tinha morrido e era dela o bilhete de identidade que usava, por isso tinha mais anos de idade no registo oficial do que na realidade. "Refugiava-se no sonho para fugir a uma realidade que era má. Vivia da imaginação."

Armando Carvalheda, funcionário da Antena 2 que também a conheceu quando era lá colaboradora, lembra-se de que esse esforço de se manter jovem resultava em vestes ridículas para a sua idade, como "um lenço-bandolete amarelo a prender cabelos louros que se entornavam pelas costas. Sempre cheia de colares, pulseiras e brincos. Vestia-se como uma adolescente, sempre de mini-saia, de cor garrida, desadequada à idade. Parecia que tinha saído de uma revista dos anos 1960".

Teria consciência dessa desadequação? No seu diário há alturas pontuais em que vai dando alguma nota do passar do tempo: "Diz-se que à medida que se vai tendo mais idade a voz vai descendo na tessitura [extensão de notas que consegue executar]", mas logo de seguida ressalva: "Pode ser que assim seja mas pode-se muito bem mantê-la o maior número de anos possíveis na melhor forma." De vez em quando repete, autoconvencendo-se: "Tenho todas as minhas faculdades vocais em plena forma, mais ainda do que antigamente."

Em momentos de maior angústia também a vemos a comentar o seu estado mental. Fala de "um esgotamento nervoso" que teve em Madrid quando lá foi gravar, "uma depressão" noutra altura. Por várias vezes se declara à beira da loucura. "A inquietação em que ando e o desespero horrível que se apossa de mim, às vezes, até me pode endoidecer."

O sonho de uma carreira artística tardou e é como se reduzisse o seu tempo de vida aos anos em que realizou as suas conquistas musicais. No extenso diário que manteve com a secreta esperança de que um dia se tornasse a biografia da sua carreira, não regista mais do que cerca de 20 anos - entre as décadas de 1960 e 1980 -, mas viveu até 1999, com 89 anos.

Arruma os seus 50 anos anteriores, antes de conseguir gravar o seu primeiro disco, em meras 22 páginas, com escassas referências temporais. Fala de passagem numa infância infeliz, porque os pais se davam mal e discutiam muito. "Fechava-me em mim própria e esperava sempre qualquer coisa que me elevasse a um mundo interior diferente." A música acabou por ser a sua forma de alheamento.

Começa a escrita do diário em 1961, dois anos antes de conseguir viajar sozinha para gravar na Columbia de Madrid o seu primeiro disco, com canções populares portuguesas, gastando com esse projecto todas as suas economias. Muitos dos seus discos foram-se gravando com o esvaziar de uma casa já humilde onde tudo foi sendo penhorado - cofre, livros, móveis, "garrafas de espumante" -, menos o decrépito piano, "que baixa meio-tom quando vêm os primeiros dias de verdadeiro calor" e do qual nunca se desfez, mesmo quando se encontrava na mais profunda penúria. Falando de si e da mãe, com quem viveu toda a vida, até esta morrer, escreve: "Nada temos para comer... como uma carcaça pequena ao pequeno-almoço e ao lanche, completamente seca, sem mais nada." Maria Emília Ramalho confessa "admiração" pela personagem: "Chegou a tirar comida da boca para gravar discos. Passou fome mas lutou por aquilo que queria."

A PERSISTÊNCIA

Além de se endividar, Natália tentou a todo o custo fazer-se conhecer por outras vias, escrevendo cartas, de Marcelo Caetano a Oliveira Salazar, reclamando o seu lugar no mundo português do canto lírico. Dedicou a essa missão - a de ser uma diva da ópera - toda a sua existência desde jovem, como se nada mais tivesse existido para além disso. "Até ao último sopro de vida hei-de marcar sempre a minha presença de qualquer maneira. Trabalharei incansavelmente até onde puder!... Será o meu nome de cantora lírica que permanecerá além da minha vida", escreve.

A sua persistência levou-a a lugares mais modestos e acabou por ganhar um meio de subsistência na rádio por onde passavam os seus ídolos musicais, a Antena 2, mas não como desejaria, como cantora. Por compaixão acabou por lhe ser atribuído um lugar como colaboradora do arquivo, onde tinha como tarefa ouvir discos e dizer se estavam em bom estado para serem ouvidos e pôr de lado os riscados, lembra Maria Emília Ramalho, então chefe dos arquivos musicais da RDP.

A última entrada do seu diário, já no início da década de 1980, acaba em tom de final feliz: conta como é reconhecida por "admiradores" nas ruas de Lisboa desde a sua aparição no programa Passeio dos Alegres, de Júlio Isidro, no que lê como mostras de apreço pelo seu valor como artista e não como aquilo que de facto seriam, troça pela figura de uma mulher debilitada e envelhecida que insistia saber cantar. "Não se pode imaginar a popularidade que actualmente tenho."

NO MUNDO ENCANTADO

Natália criou vários refúgios onde cultivava o seu universo. É no que chama "mundo encantado", o Jardim Botânico, em Lisboa, a poucos minutos da casa onde viveu quase toda a vida, que se deslocava de propósito para se alhear da sua realidade e registar alguns destes sucessos e infortúnios, com a secreta esperança de que as páginas da sua história, cosidas a linha branca, ficassem para além de si.

No lugar onde ia passar férias com a mãe, nos arredores de Viseu, em Santo Estêvão, encontrou lugar com função semelhante, um bosque a que chama "mirante encantado". Aqui, ainda há hoje quem se lembre de Natália, juntamente com a mãe, irem tardes inteiras para os bosques treinar as vozes. Saíam depois do almoço e ficavam no meio da vegetação "horas esquecidas", lembra Maria da Ascensão Lemos, que hoje tem 72 anos, mas na altura era criança. "Era onde procuravam o silêncio para ensaiar."

Na aldeia ninguém lhes contestava o título de "cantoras de ópera de Lisboa" e o Jornal da Beira chega a anunciar um recital privado e pago protagonizado pelas duas, no Clube de Viseu, tinha Natália 30 anos. Natália viveu grande parte da sua vida sozinha com a mãe, numa dinâmica em que uma alimentava o ego artístico da outra. Lembra-se Hugo Ribeiro, operador de som da Valentim de Carvalho, que gravou alguns dos seus álbuns, de a mãe anunciar a filha como a maior cantora de ópera de Portugal, ordenando, na chegada ao café lisboeta a Brasileira: "Levante-se que acaba de chegar a maior cantora lírica de Portugal"; no seu diário, Natália de Andrade presta-lhe iguais honras e elogia "a voz de meio-soprano contralto verdadeiramente extraordinária" da mãe, Maria de Andrade, que a certa altura a acompanhava ao piano, lembra Maria Emília Ramalho.

Natália morreu sozinha, a 19 de Outubro de 1999, num lar para idosos onde estão guardados os oito pacotes de papel com os seus últimos pertences, como acontece com os bens dos utentes sempre que não há família ou amigos que os venham reclamar. A Fundação Sarah Beirão e António Costa Carvalho, em Tábua (região de Coimbra), é um lar que, na sua origem foi criado para albergar pessoas especiais: artistas. Como ela?

A sua entrada fez-se em Novembro de 1991 pelas mãos de responsáveis que apresentaram a nova utente ao pessoal como Natália de Andrade gostaria de ser apresentada, respeitando-lhe a ilusão, "que era conhecida internacionalmente e cá", lembra a auxiliar Graça Veiga Pereira. Já diminuída física e intelectualmente, foi anunciada como alguém que tinha tido uma bem-sucedida carreira e as cuidadoras semiacreditaram.

JÓIAS DE FANTASIA

Não era como no bairro que deixava para trás, em Lisboa, onde era conhecida a sua fama de começar cedo, demasiado cedo os seus ensaios vocais. "De manhã, à tarde, à noite. Era a ópera, a gente não percebia. Aquilo entranhava-se no ouvido, eram uivos", queixa-se Ana Paula Sousa. Todos os dias Natália saía de casa dizendo que era famosa e que "ia ensaiar para o São Carlos" mas nem ela nem outros vizinhos alguma vez acreditaram nisso.

No lar era diferente. Ali, quase sem visitas, falava às funcionárias do lar da sua carreira gloriosa em Espanha, e havia quem acreditasse numa história de vida que ia contando. "Ela na Espanha era uma diva", referem relatos crédulos de Graça Veiga Pereira, que reproduzem o que ela lhes dizia, "tinha disco de platina ou de prata", hesita. Há nessas lembranças um misto de dúvidas, atribuídas mais à senilidade do que à imaginação. "Trazia jóias de fantasia e estimava-as como se fossem jóias a sério", reparava Graça Veiga Pereira.

Mesmo nos seus últimos tempos de vida, a música continuou a ser o centro da sua vida. Ao salão que tem junto à janela um piano de cauda era onde a traziam, já trôpega, uma a duas vezes por mês, lembra a auxiliar Otília Alves. "Gostava que lhe batessem palmas. Ria-se. Ficava na sala do piano 15 a 20 minutos, sozinha, ficava feliz", conta uma das funcionárias. "As pessoas ficavam admiradas de como tinha aquela voz naquela idade, imagine como era a voz dela quando era jovem", diz Rosa Gameiro. Ela bem dizia, "olha como eu era, filha", apontando para uma das suas fotografias autografadas de jovem que ficaram por distribuir.

Quando as suas capacidades se perderam e nem o percurso até ao salão do piano conseguia fazer, Natália continuou a querer ter música na vida. Já não cantava, mas para aceitar comer pedia que lhe cantassem. Rosa Gameiro rememora palavras italianas que nunca percebeu, eram de uma ópera, e imita de forma confusa uma palavra, algo como "viveremo", que ela lhe ensinou. "Meu amor, canta comigo", pedia. "Como era o sonho dela, eu cantava." É um excerto do verso inicial de Madame Butterfly, de Puccini: un bel dì vedremo (um belo dia veremos levantar-se um fio de fumo nos confins extremos do mar).

"No fim já não sabia quem era, a gente cantava e ela reconhecia algo que lhe pertencia, onde se reconhecia a ela própria", diz Graça Veiga Pereira. Para uma senhora "que era uma cantora internacional", lamenta que tenha vivido aqueles anos sozinha, quase sem visitas, e que ao funeral só tenham ido funcionárias e utentes do lar. "Foi muito triste o fim dela, um fim como uma pessoa qualquer. Tive pena, porque sabia que era uma pessoa notável."

No dia seguinte à sua morte, lia-se, em título, no Diário de Notícias: "Morreu a cantora lírica Natália de Andrade", como que oficializando o seu estatuto. No texto escreve-se que, "longe de representar um valor maior do canto, foi, todavia, uma mulher forte na sua convicção e paixão pelo canto lírico". Dela se recuperava, incontestadas, as notas que deixou da biografia, de que tinha sido "uma aluna brilhante do Conservatório" e tinha cantado ópera no Coliseu dos Recreios. A Antena 2 fez em 2005 um documentário que, apesar de explorar a controvérsia da figura, funcionava como uma homenagem.

GÉNERO: DIVAS ILUDIDAS

É irónico que cinco anos após a sua morte, em 2004, a sua aproximação a uma espécie de glória mundial tenha acontecido pelas mãos de uma editora norte-americana alternativa dirigida a um nicho de apreciadores de música com sentido de humor, a Homophone.

Natália de Andrade é um de 12 nomes de uma colectânea internacional em CD onde surge ao lado de outras "musas" como ela, caso da inglesa Olive Middleton a cantar Verdi, Mari Lyn a cantar Rossini. O CD The Muse Surmounted, subintitulado "uma celebração da sinceridade do coração e dedicação transfigurada no canto que de outra forma ficaria desconhecido" vende-se na Internet (também na Amazon) e responde a um nicho de admiradores que ouvem Natália e outras como ela, não pela razão porque gostaria de ser ouvida - pelo virtuosismo -, mas por não o ter.

Curioso é que o norte-americano Gregor Benko, o produtor, diga que há mercado para estes desvios, já que este foi um dos seus projectos de música clássica "com mais sucesso comercial, vendendo bastante mais do que gravações de grandes artistas que tenho produzido". E constata que muitos dos "apreciadores" são, não por acaso, músicos profissionais.

Natália chegou a ter no seu tempo uma espécie "de palco privado" entre músicos profissionais, em Lisboa, lembra João Pedro Mendes dos Santos, professor de Formação Musical no Conservatório de Lisboa, que assistiu a algumas das suas sessões. Uma gravação vídeo feita na altura mostra-a com a mesma pele branca sobre os ombros com que aparece na capa de um dos seus discos, acompanhada por uma mini-orquestra de músicos profissionais, de instituições como a Gulbenkian, a abafar gargalhadas atrás de uma Natália demasiado compenetrada no seu canto para reparar.

Na altura, as suas edições de autor de cerca de 200 discos "esgotavam em um dia nas lojas Valentim de Carvalho, em Lisboa. Houve mesmo discos patrocinados por músicos para gozo pessoal, recorda Hugo Ribeiro.

O musicólogo Rui Vieira Nery não se orgulha de, a certa altura, enquanto jovem, ter feito parte desse circuito do qual depois se afastou. O que atraía os músicos para a figura de Natália? "Dentro do lado trágico, havia o lado cómico. Era uma caricatura do canto de ópera. Percebia-se que era alguém que tinha estudado canto, há ali um resto de técnica. É uma caricatura da técnica de canto."

O produtor Gregor Benko chamou-lhes ironicamente The muse surmounted, ou seja, as musas que conseguiram superar-se. Mas, contrariamente a Natália, muitas destas "divas" tinham dinheiro e patrocinaram a suas expensas as suas pretensas carreiras artísticas. A abastada americana Florence Foster Jenkins encheu o Carnegie Hall com três mil pessoas em 1941 e a sua conterrânea Mary Lyn pagou por uma série de programas num canal público de televisão de Nova Iorque na década de 1980.

UM MUNDO À PARTE

Há assim mais como Natália, têm em comum serem idosas e convencidas do seu talento, tendo conseguido ao longo das vidas abafar os risos à sua volta. "São pessoas iludidas, cantoras de 60 a 70 anos, cantaram todas as suas vidas e não se apercebem quando as suas vozes começam a soar mal. Não ouvem realisticamente as suas vozes." Vivem "num mundo delas". Foi este o título, "um mundo seu", escolhido por Daniel Collup para o documentário que fez sobre Jenkins. "Ela não ouvia o que nós ouvíamos. Estava convencida do seu talento. Iludida é a melhor palavra, não é maluca."

A admiração de Collup por este género vem também do facto de "os [verdadeiros] cantores de ópera não correrem riscos", diz Collup. E é José Pedro dos Santos, professor no Conservatório, quem diz que no CD "cantam todas mal, cada uma à sua maneira, mas a Natália é a mais empolgante". O professor tem toda a sua discografia e explica que os seus vinis se tornaram peças de coleccionador entre músicos.

Collup explica o fascínio pelas divas iludidas como algo de humano e, para que se perceba, traz o exemplo do programa televisivo American Idol (Ídolos). "As maiores audiências são nas audiências preliminares, onde aparecem personagens ridículas convencidas de que têm talento, são estas que as pessoas mais gostam de assistir." São arrasadas por um júri, mas se calhar continuarão a acreditar em si de forma cega. Nos programas onde se juntam os melhores, as audições são menos vistas.

"É difícil de definir. Fazem as pessoas sentir-se desconfortáveis: sabem que aquela pessoa está a cantar mal e agradecem não serem elas ali no palco", comenta Collup, que foi cantor lírico na juventude. Existe uma palavra em alemão para esta forma de prazer, é a Schandenfreude, "o sentimento de alegria e pena de alguém, é esse o sentimento que está associado ao prazer de ouvir as musas". É isso que atrai as pessoas pelas Natálias de Andrade do mundo.

Natália deixou, em oito pacotes, fotografias suas tiradas no tempo em que escolheu viver, a juventude, e dois álbuns, que tratava como tesouros: "Meus queridos discos!! Quero-lhes tanto, como se fossem entes queridos." No errático diário há uma frase que quase podia ser o resumo da sua vida: habitou "um mundo eterno repleto de realidade... num sonho maravilhoso".

 

27 de Junho de 2010

cgomes@publico.pt

Texto: Catarina Gomes

 

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publicado por sete às 17:08

17
Mar 19

A opinião de Marco Neves: Tradutor, professor e

autor

 

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Hoje falo de erros de português e de línguas inventadas — e da fúria gramatical que invade algumas pessoas.

 

1. Línguas de fantasia

 

Há livros, filmes e séries de fantasia em que as personagens, de vez em quando, falam línguas ficcionais.

J. R. R. Tolkien inventou, não uma, mas várias línguas, ainda antes de escrever O Senhor dos Anéis.

Já George R. R. Martin não se deu a esse trabalho para os livros d’A Guerra dos Tronos. Quando os livros se transformaram numa série, os produtores contrataram um linguista — David J. Peterson — para imaginar as línguas de povos como os Dothraki. Como o linguista descreve no livro The Art of Language Invention, nem sempre houve esta preocupação. Por exemplo, as línguas inventadas para a Guerra das Estrelas são palavras soltas, sem gramática que se veja.

Tanto as línguas de Tolkien como as de Peterson têm gramáticas complexas, subtilezas insuspeitadas e uma beleza muito própria. Não foram criadas para serem úteis ou fáceis de aprender, mas antes para espicaçar a imaginação do público.

Quando Peterson viu o primeiro episódio d’A Guerra dos Tronos, ficou um pouco aborrecido ao encontrar um erro gramatical numa das frases em dothraki...

E ficou aborrecido porquê ? Alguém iria perceber ? Sim ! Hoje em dia, perante uma série destas, vista por milhões de pessoas e durante muitos anos, há sempre algumas pessoas que ficam obcecadas por estes pormenores. Há quem reconstrua as gramáticas das línguas inventadas e verifique se as personagens sabem, de facto, usá-las como nativos.

Mas não é só por isso: Peterson é um conhecido conlanger, ou seja, um criador de línguas. Este é um passatempo de muitas pessoas por esse mundo fora... Ora, ao criar uma língua para ser ouvida por tanta gente, um conlanger que se preze não quer ouvir a sua língua maltratada. Os actores têm de ser nativos de línguas que ninguém fala !

Os conlangers existem há muito, embora o nome seja recente. Desde sempre algumas pessoas se entretiveram a imaginar idiomas. As razões vão desde a tentação de imaginar uma língua perfeita (Umberto Eco conta muitas das histórias no livro A Procura da Língua Perfeita) até à necessidade de expressão artística através da criação de gramáticas — é o caso de Tolkien e outros.

Peterson é o exemplo de outro tipo de conlangers. São pessoas que criam línguas por  prazer ! Também existem há muito tempo — mas estas pessoas só começaram a perceber que não estavam sozinhas quando a internet permitiu, nos anos 90, juntar num só local virtual gente com interesses muito particulares espalhada pelo mundo...

Desde listas de distribuição a salas de chat, passando por blogues, websites, wikis e, agora, grupos de Facebook — toda a panóplia de canais e "sítios" virtuais ajudou a criar uma nova comunidade e uma nova arte com as suas tradições, regras e clubes — a criação de línguas. O livro de Peterson conta a história...

 

2. Disparates há muitos !

 

Mas — e esta é a outra face da moeda — a Internet também permite que uma multidão se junte para atacar o mais pequeno deslize, mesmo quando falamos de erros gramaticais em línguas que não existem.

Estes vigilantes são um colectivo mais atento que qualquer revisor de caneta em riste. Então se olharmos para as línguas naturais, encontramos, em vários recantos da internet, uma atenção implacável a tudo o que está escrito: cartazes, posts, comentários, oráculos da televisão, etc.

Não teria muito que dizer sobre isto — gosto de estar atento à língua —, não fosse dar-se o caso de esta "exigência linguística" ser, uma vez por outra, uma máscara para a ignorância arrogante.

Já vi insultos e palavras em fogo porque uma tradutora tinha usado a construção "ter pagado" (que está correctíssima). Já encontrei discussões tremendas por causa dum tempo verbal que era considerado erro apenas porque os participantes na discussão não o conheciam (falo do pretérito perfeito composto)... E, já agora, falando dos erros verdadeiros, quantas vezes não encontramos quem defenda a ideia de que são um fenómeno recente, como se há 100 anos os portugueses escrevessem de forma imaculada ?...

O que fazer ? As redes sociais e a Internet em geral expõem-nos a todo o tipo de exageros, ignorâncias, desvarios. Há quem fique convencido de que a estupidez está em expansão... Não está: o problema é a visibilidade da parvoíce e a rapidez com que se formam clubes de defensores de um qualquer disparate. Por isso, mais vale aceitar: todos acreditamos em disparates aqui ou ali; muitos de nós escrevemos, agora, no Facebook; desta forma, a probabilidade de encontrarmos disparates é muito elevada. Mais vale respirar fundo e avançar.

 

3. A turba digital

 

No entanto, a tal turba digital, por vezes, ataca com uma força que não podemos ignorar — uma força que raramente pára para pensar e, mesmo quando tem razão, é muito perigosa.

Sem sair da questão da língua — embora tudo o que estou a dizer se aplique a qualquer tema —, imaginemos que um famoso qualquer — político, artista, comentador — use, um belo dia, a construção "devia de". "Devia de" ? Meu Deus ! Começam a tremer as mãos. Sai um enxurro de insultos, sarcasmos, declarações bombásticas sobre o estado da língua, do país e do ensino. Certamente alguém dirá que "antigamente, todos aprendíamos português na escola"...

E, no entanto, a construção existe há muitos séculos em português. É uma construção portuguesíssima. Aqui fica uma frase — entre tantas ! — de Calisto em A Queda dum Anjo, num discurso em defesa da língua portuguesa (!): "Se a linguagem portuguesa fosse aquilo que eu acabo de ouvir, devia de estar no vocabulário da língua bunda." Camilo Castelo Branco usava "dever de" com talento...

Não é caso isolado. "Dever de" aparece nos melhores autores. Aliás, encontramos "dever de" em livros pouco importantes como Os Lusíadas... (Convém assinalar que a expressão "pouco importantes", na última frase, contém ironia — que isto da escrita em linha dá-se mal com tais recursos.)

Hoje, famoso que calhe escrever "devia de" numa qualquer rede social é crucificado. Quem não conhece a construção, junta-se à multidão e acende as tochas virtuais.

Volto ao início: David J. Peterson, o inventor da língua dos Dothraki, afinal não tinha razão. Como explica no livro, a frase que lhe parecera errada estava, afinal, correcta — ele é que não se lembrava duma subtileza da gramática que inventara... Se o próprio inventor duma língua nem sempre conhece os meandros da sua gramática, o que dizer de nós, que falamos uma língua natural, antiga e complexa ? Mais vale investigar primeiro e, se for o caso, corrigir depois — sempre com delicadeza.

 

publicado por sete às 18:59

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